Respiração, caminho para a harmonia
por Paulo Cezar Carrazedo de Almeida
Segundo G I Gurdjieff “Sem dominar a respiração, nada pode ser dominado.” Respirar é viver e, respirar profundamente é viver profundamente e, portanto, a respiração é importante matéria da qual qualquer um não deve desconhecer.
A respiração participa do princípio da ecologia cósmica uma vez que o oxigênio que respiramos é o resíduo da respiração vegetal expelido no meio ambiente assim como o dióxido de carbono resíduo de nossa respiração, ao ser eliminado na atmosfera é absorvido pela vida vegetal. Através dela conectamos nosso mundo interior com o vasto mundo exterior, a terra e sua atmosfera e toda a vida orgânica existente nela.
O oxigênio, gás claro e inodoro importante para à saúde das células, é de vital importância, para nós, seres humanos, uma vez que participa com 65% na constituição de partes do nosso corpo, como sangue, órgãos, tecido e pele. Importante para a nossa sobrevivência, dele necessitamos para as diversas funções corpóreas. Somente o nosso cérebro, que representa 2% de nossa massa corpórea, necessita de 20% do oxigênio presente em 21% do ar que respiramos.
Além da oxigenação (saturação com oxigênio), o outro efeito que a respiração gera no nosso corpo é o processo oxidativo, em que o oxigênio participa tanto na produção de energia quanto, na defesa do corpo contra bactérias, vírus, leveduras e parasitas. Nosso corpo utiliza o peróxido de hidrogênio para produzir os radicais hidroxila, responsáveis pela eliminação de bactérias, vírus, fungos e parasitas. Nos pulmões o peróxido de hidrogênio ajuda a estimular o processo de oxigenação. Pode também participar do aumento do rendimento cardíaco total, uma vez que pode dilatar vasos sangüíneos no coração, extremidades, cérebro e pulmões, como também diminuir o batimento cardíaco, aumentar o volume da pulsação e diminuir a resistência vascular.
Se, por um lado, o oxigênio é a maior fonte de oxigenação, por outro o ozônio e o peróxido de hidrogênio constituem os mais conhecidos agentes da oxidação, muito embora também sejam poderosos no processo de oxigenação. Quando este processo é fraco ou deficiente, nosso corpo pode ser levado a experimentar estados diferenciados quanto à sua ocorrência. Em menor grau, há manifestação de fadiga, indolência e indisposição. Diante de casos crônicos de deficiência oxigenativa, ocorre um enfraquecimento de nossas respostas imunológicas à ação de germes e vírus, o que nos torna alvo de manifestação de doenças. No entanto, estes oxidantes também estão ligados à produção de radicais livres.
Para muitos de nós, um ciclo respiratório completo, inspiração e expiração, ocorre numa freqüência de 12/14 vezes/min em vigília e de 6 à 8, durante o sono, podendo chegar à 100 vezes, sob estresse.
O ar, ao adentrar no nariz é, inicialmente, filtrado através dos pelos nasais que retêm impurezas para, ao longo do percurso pelas vias nasais ser umedecido e aquecido. O ar percorre diferenciadamente seu percurso por ambas as narinas, uma vez que, quando uma está mais aberta e a outra se encontra mais fechada. Isto ocorre pela alternância do fluxo sangüíneo nas narinas. É nos alvéolos pulmonares que se dá a troca de oxigênio por dióxido de carbono. O oxigênio ao chegar aos pulmões adentra no sistema circulatório, sendo transportado pelas moléculas de hemoglobina do sangue, chegando às células, onde, combinado com o carbono dos alimentos, irá gerar, num processo de combustão lenta, energia biológica. Esta energia é deslocada para moléculas que irão armazená-las e disponibilizá-las para todo o organismo. Na expiração os produtos residuais, como o dióxido de carbono, são devolvidos e eliminados através das moléculas de hemoglobina.
Nossa respiração se processa através de três fases – diafragmática, torácica e clavicular, podendo variar do ritmo lento ao rápido ou de superficial à profunda, conforme nossa atividade – deitado, em pé, andando ou correndo- ou de acordo com nosso estado psicológico – tranqüilo, feliz, com raiva, estressado -.
Na 1ª fase, a diafragmática, o diafragma se contrai expandindo levemente as costelas inferiores e causando expansão da parte superior do abdome fazendo com que o ar flua até a parte mais profunda dos pulmões. A seguir, durante a fase torácica, a parte mediana dos pulmões se expande determinando a projeção do peito. Por fim, um discreto levantamento das clavículas fará com que o ar atinja a porção superior dos pulmões. No entanto, grande parte das pessoas utiliza apenas, em qualquer estado físico ou emocional, as fases torácica e clavicular deixando de se beneficiar dos efeitos da fase diafragmática, quando a maior parte do sangue aguarda para ser oxigenado. Esta respiração superficial não só determina uma experiência de vida também superficial, como também nos limita na prevenção dos problemas físicos e psicológicos, que seria possível caso desenvolvêssemos a capacidade de respirar naturalmente. Respirar superficialmente significa diminuir a troca de gases e a conseqüente diminuição de energia celular. Respirar profundamente, ao contrário, significa o mesmo que se preencher de energia.
O ar atmosférico repleto de íons, ao ser inalado através das narinas, durante a respiração, alcança velocidade pela força com que é aspirado. Estes íons vão estimular eletricamente os plexos nervosos e vasos sanguíneos existentes nas narinas. Douglas Baker afirma que a grande concentração de terminais nervosos permite que, com a rápida passagem do ar, sejam excitados os tratos etéricos que se estendem da cavidade nasal até a coluna, produzindo alterações nos chacras.
Segundo Mestre Hilarion “Quando um corpo Humano respira e traz o ar para dentro dos pulmões, o prana que está dentro do equivalente etérico do corpo é transformado nas várias energias utilizadas na vida cotidiana: energia mental, energia emocional e energia física.”
Para a Hatha Yoga, “Ha” simbolicamente significa “sol” e corresponde a narina direita enquanto “Tha” simbolicamente significa “lua”, correspondendo a narina esquerda. Ainda, segundo estes ensinamentos, estes orifícios servem de entrada para forças etéricas que descem ao longo da coluna, entrelaçando-se, através de dois tratos etéricos, denominados “Ida” e “Pingala”.
Segundo os mestres taoistas, quando a mente se acalma e esvazia, a respiração natural surge automaticamente, como conseqüência de um trabalho conjunto mente/corpo. A respiração natural se constitui numa potente forma de cura, não dependendo apenas daquilo que fazemos mas, sim, de como o fazemos.
Nossa respiração é normalmente um processo involuntário controlada pelo centro respiratório do nosso sistema nervoso autônomo. Contudo, podemos intencionalmente prender, ampliar ou reduzir tanto a inspiração quanto a expiração. Tanto a atividade física quanto o estresse emocional e os estímulos sensoriais modificam a atividade química de nosso organismo fazendo com que haja uma modificação da respiração para que seja mantida a homeostase. Se não é possível interferir neste processo bioquímico de controle da respiração pelo menos podemos influenciá-lo através de técnicas de relaxamento ou de meditação.
Quando meditamos, normalmente focamos nossa atenção na respiração. Ao observarmos nossa respiração veremos que ela pode ser equilibrada, quando existe um equilíbrio entre inspiração e expiração, depuradora, quando a expiração prevalece sobre a inspiração e a energizante, quando ocorre o oposto. A respiração depuradora pode ocorrer quando quer física ou emocionalmente estamos sobrecarregados de toxinas ou tensões, podendo ocorrer sob a forma de um gemido ou suspiro. Também espontaneamente podemos adotar a respiração energizante, quando nos sentimos cansados e entediados e a manifestamos sob a forma de um bocejo.
Respiração e emoções se inter-relacionam. Quando a raiva, por exemplo, se manifesta poderemos perceber que nossa inspiração se torna superficial com expirações fortes alem de manifestações de tensionamento no pescoço, mandíbulas, peito e mãos. Sensações de medo se relacionam a inspirações rápidas, superficiais e irregulares. Diante da tristeza, a respiração se torna espasmódica, a impaciência nos conduz à respirações curtas e descoordenadas, enquanto o sentimento de culpa e a autocrítica estão ligadas a uma respiração constrita e sufocada.
Se estados emocionais como raiva, medo, tristeza, impaciência e culpa modificam nossa respiração, também provocam estresse e conseqüentemente o aumento de um hormônio, a cortisona, que em excesso inibe o sistema imunológico, provocando doenças.
Se não conseguimos nos livrar de emoções negativas podemos, pelo menos, tomar consciência delas para, através da respiração natural, atingir um estado de harmonia.